Mulheres no mundo dos investimentos


Por Catarina Melo, Semanário Económico

"Esta é, aliás, uma das características que alguns estudos internacionais identificam como distintiva entre homens e mulheres quando se movimentam no mundo dos investimentos. Na generalidade, os estudos são consensuais em relação ao facto de que as mulheres têm um perfil de investimento mais conservador e que são mais pessimistas do que os homens."

As meninas vestem-se de rosa e os meninos de azul. As raparigas gostam de brincar com barbies e os rapazes com brinquedos de guerra. As mulheres choram sempre nos casamentos enquanto que os homens... nunca choram. Nos dias que correm, estereótipos como estes estão "fora de moda" e as diferenças entre os dois sexos tendem a esbater-se. Uma tendência que também se observa no universo dos investimentos. Se durante muitos anos foi considerado um meio maioritariamente masculino, essa realidade está a mudar. Nos dias de hoje é cada vez maior o número de mulheres não só que trabalham no sector financeiro como investem directamente o seu património pessoal e familiar ou gerem carteiras de investimento alheias. Maria Cândida Silva, presidente da corretora L.J. Carregosa, passou a integrar a história da bolsa portuguesa em 1981, altura em que se tornou na primeira mulher a desempenhar funções como corretora. Na época em que começou nesta função, depois de trabalhar na casa de câmbios do pai, o universo financeiro ainda estava muito concentrado nas mãos dos homens. Apesar disso não se sentiu discriminada pelos colegas do sexo oposto. "Todos eles reagiram muito bem, até porque eu já tinha experiência, enquanto que eles ainda não a tinham. Além disso, quando eu comecei, muitas outras mulheres também estavam a entrar para o meio financeiro. Os anos 80 já eram anos das mulheres", recorda. Apesar de ter sido uma pioneira no mundo dos negócios da bolsa, o certo é que em relação aos clientes da corretora L.J. Carregosa considera que o número de mulheres ainda é relativamente reduzido. "Não é possível catalogar, mas acho que os homens ainda têm um sentido de risco mais apurado do que as mulheres. Querer assumir riscos, querer estar na bolsa, querer produtos novos é uma característica mais masculina. As mulheres são mais conservadoras. Têm muito mais sentido da realidade e dos riscos futuros".

Filipa Antunes, é uma das portuguesas que utiliza as plataformas on-line para proceder às suas ordens de compra e de venda. Investe há pouco mais de um ano, mas já se assume como uma investidora agressiva. "Para mim, assumir riscos é quase como um desporto radical. Costumo dizer, aliás, que se procurasse segurança colocava todo o dinheiro num Plano Poupança Reforma", diz a brincar. É certo que gosta sempre de ter um activo de risco reduzido, como por exemplo um fundo de investimento, mas a maior parte da sua carteira (cerca de 80%) tem associado um risco mais elevado. Já experimentou investir em CFD's, mas prefere apostar em acções dos Estados Unidos e sobretudo do Nasdaq. "É um mercado muito mais volátil e, aí, a adrenalina é maior. Pode acontecer de tudo". Para Filipa ter um título mais do que três dias é quase impensável. O que aprecia mesmo é a adrenalina do day-trading mas ainda assim, considera-se uma investidora bastante consciente e racional. Antes de se iniciar nos negócios da bolsa, começou por "aprender a lição". Fez um curso de análise técnica e outro de análise financeira e não faz nenhuma operação sem antes estudar e acompanhar as notícias sobre a empresa. "Investir exige que se estude, que se tenha calma e serenidade. Gasto pelo menos três horas por dia a acompanhar o que se passa nos mercados e se não utilizar essas horas sinto que não fiz o trabalho como deve de ser. Quando não tenho informação suficiente prefiro não arriscar".

ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE OS DOIS SEXOS

Esta é, aliás, uma das características que alguns estudos internacionais identificam como distintiva entre homens e mulheres quando se movimentam no mundo dos investimentos. Na generalidade, os estudos são consensuais em relação ao facto de que as mulheres têm um perfil de investimento mais conservador e que são mais pessimistas do que os homens. Contudo, os homens por oposição parecem sofrer por vezes de "excesso de confiança". Segundo um estudo divulgado em 2005 pela Merrill Lynch, as mulheres cometem menos erros enquanto os homens mais facilmente compram um investimento "quente" sem fazerem uma pesquisa prévia e estão dispostos a manter durante mais tempo activos em que estão a sofrer perdas. Esta é também uma das principais diferenças que a gestora de fundos de investimento da Espírito Santo Activos Financeiros, Paula Freitas, identifica como sendo um dos aspectos diferenciadores entre os dois sexos. "Já trabalhei em várias equipas, por isso acho que tenho alguma percepção de como as pessoas investem. O que acho em relação às mulheres é que talvez sejam mais metódicas. Estabelecem uma metodologia e são mais sistemáticas. Uma vez decidido comprar ou vender um determinado título, a decisão é imediata. Nisto, talvez as mulheres sejam mais rigorosas do que os homens", afirma. Paula Freitas reconhece que trabalha numa área muito difícil. "É um trabalho muito exigente. As pessoas ao fim de algum tempo preferem mudar para áreas mais calmas, por isso há uma grande rotatividade nesta actividade". Ainda assim, foi esta a área que elegeu há 12 anos depois de ter trabalhado durante quatro anos em equipas de research. Aprecia a participação activa na tomada de decisões que a gestão de um fundo de investimento lhe permite. Nem o facto de ser uma tarefa muito exigente acompanhar o que se passa nas economias e nos mercados a nível global ou os sustos infligidos pelas correcções nos mercados abalam a sua confiança quando está a gerir os milhões de outras pessoas. Paula Freitas ainda recorda a primeira vez que assistiu a essas quedas. "Foi em Agosto e Setembro de1998. Em situações como aquela, toda a gente está a vender sem se importar com os preços. Para mim é assustador ver isso acontecer. É necessário ser racional, o que acaba por não ser fácil porque o stress e a emoção estão sempre presentes".

Desde o início da década de 90 que esta professora do ensino especial faz aplicações ?nanceiras. Mas, só no ano passado, saltou para a ribalta ao vencer o primeiro concurso de bolsa feito em Portugal com dinheiro real que foi realizado pela corretora DIF Broker. Chegou ao ?nal do con- curso com uma carteira valorizada em 100% face ao montante inicial- mente investido. Apesar de se tratar de uma amadora e de ser mulher, deixou para trás 29 concorrentes, alguns dos quais pro? ssionais do mercado e alguns especialistas em day-trading. O per?l de conser- vadora, foi uma característica a que durante todo o concurso não foi possível associar-lhe. Durante os 12 meses que durou a prova utilizou todo o tipo de activos: mercados cambiais, acções, CFD's, futuros sobre o petróleo e até commodities como o milho ou o trigo, passando pelo ouro e pela prata. Uma vencedora, entre ho- mens e mulheres.

Quem está consciente da necessidade de decisões de investimento firmes e imediatas é Maria Pereira. É ela que assume a rédea dos investimentos familiares, apesar de pontualmente recorrer à opinião do marido. "Normalmente sou eu quem toma as decisões porque gosto mais de avançar e sou menos avessa ao risco do que o meu marido. Depois de ver alguma informação sobre a acção e de a ter estudado em termos numéricos para perceber se é ou não o momento indicado para comprar ou vender, não gosto de esperar muito. Deve-se fazer logo a compra ou a venda". Ainda assim, contrariamente a Filipa Antunes, Maria Pereira prefere investir para já apenas em acções nacionais apesar de por vezes gostar de arriscar com futuros. "Quando se está no mercado accionista, temos que estar conscientes de que estamos sempre expostos a um certo nível de risco. Ao contrário da bolsa norte-americana, é fácil investir na bolsa portuguesa. Temos empresas consistentes, com mais-valias e forte propensão para crescer. Mas isto não significa que mais tarde não vá para outros mercados". Mas antes disso, pretende melhorar as suas ferramentas de investimento. Na sua agenda assinalou ainda para este ano a realização de um curso de mercados financeiros. Em relação ao papel das mulheres no universo dos investimentos, esta investidora é peremptória: "Se hoje em dia já cabe às mulheres tomar muitas outras decisões, porque não caber-lhes também gerir a parte financeira?"

Desde o início da década de 90 que Maria Helena Coutinho professora do ensino especial faz aplicações financeiras. Mas, só no ano passado, saltou para a ribalta ao vencer a primeira competição de bolsa feita em Portugal com dinheiro real que foi realizado pela corretora DIF Broker. Chegou ao final da competição com uma carteira valorizada em 100% face ao montante inicialmente investido. Apesar de se tratar de uma amadora e de ser mulher, deixou para trás 29 concorrentes, alguns dos quais profissionais do mercado e alguns especialistas em day-trading. O perfil de conservadora, foi uma característica a que durante todo o concurso nãofoi possível associar-lhe. Durante os 12 meses que durou a prova utilizou todo o tipo de activos: mercados cambiais, acções, CFD's, futuros sobre o petróleo e até commodities como o milho ou o trigo, passando pelo ouro e pela prata. Uma vencedora, entre homens e mulheres.